segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

AMOR DE CARNAVAL

AMOR DE CARNAVAL



Suely Pavan Zanella (*)

Quando eu era adolescente ouvia na época do carnaval sempre a mesma frase: “Amor de carnaval dura até quarta-feira de cinzas”. A realidade na vida adulta me mostrou duas diferentes facetas: os amores que acabavam na quarta-feira de cinzas e aqueles que viraram namoros e casamentos.
Eu mesma em um carnaval conheci um rapaz que namorei mais de dois anos. Carnaval como qualquer lugar era um local onde se poderiam conhecer pessoas e com elas travar relacionamentos afetivos ou apenas amizades.
Em São Paulo os clubes ofereciam bailes aos seus associados, e no interior e nas praias havia os blocos de rua. O Rio de Janeiro era o marco das escolas de samba.
Viajar não era um hábito como hoje, e as pessoas iam em sua maioria aos clubes. Os bailes começavam às 23:00 horas e terminavam às 4:00 da manhã. Depois do baile a fome batia e era hora de comer um lanche ou tomar canja. Depois chegar em casa tomar um banho, dormir, comer, tomar outro banho, e arrumar-se com uma nova fantasia e aí curtir uma outra noite de carnaval. E quem sabe encontrar um grande amor.
As músicas que tocavam nestes bailes eram as velhas marchinhas (1): Mamãe eu quero; ALLAH-LÁ-Ô;  Cachaça; Cabeleira do Zezé; A Jardineira; Saca-Rolha.
 Além das famosas (da época):
“A cigana leu o meu destino. Eu sonhei! Bola de cristal. Jogo de búzios, cartomante. E eu sempre perguntei. O que será o amanhã?” (2) e “A minha alegria atravessou o mar. E ancorou na passarela. Fez um desembarque fascinante. No maior show da terra. Será que eu serei o dono dessa festa.” (3).
O clima deste bailes era um misto de diversão ingênua e romantismo. Tal como ocorrem hoje nas matinês, evento que particularmente adoro.
Existiam sim beijos e “amassos”, porém a diferença é que ficávamos com a mesma pessoa nas 4 noites de carnaval ou ao menos em uma noite com uma única pessoa. Este relacionamento poderia durar, e as pessoas apenas se conheciam. Não é como hoje, em que o amor de carnaval, micareta, ou na rua tem a duração exata de um beijo. Mal se acabou de beijar um ou uma e já se engata outro beijo (que nojo!). Não se sente o sabor dos beijos e muito menos se conhece ninguém. Como este ritual de  beijação não corresponde ao humano e até ao animal o que se faz é beber muito e usar drogas para ter coragem de encará-lo. O que vale é o ritual competitivo “beijativo” focado em quantidade. Ninguém está interessado em conhecer ninguém. E depois tem gente que reclama na quarta feira de solidão!
Antes bebidas existiam, mas sem nenhum exagero, pelo menos por parte das mulheres. E elas não queriam passar a noite com um cara bêbado e chato ao lado delas. Portanto, ficar bêbado como um gambá, era sinônimo de passar a noite sozinho e até ser expulso pelo segurança do baile.
A partir da década de 90 os bailes noturnos de carnaval em clubes em São Paulo, foram se extinguindo. As músicas foram mudando e hoje vale o axé e as sertanejas tocados até nas matinês. Bebidas foram associadas à diversão. E agora beber e curtir o carnaval são quase uma obrigação associada. Viajar também se tornou um hábito e fez com que as estradas entupissem e os acidentes e mortes aumentassem.
E encontrar um amor no carnaval é quase uma peça de recordação.
(1)    http://www.suapesquisa.com/carnaval/marchinhas_carnaval.htm
(2)    http://letras.terra.com.br/simone/83043/
(3)    http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/44721/



(*) Este texto poderá ser veiculado em outras mídias desde que se mantenha a autoria e a forma de contato: suely@pavandesenvolvimento.com.br