segunda-feira, 11 de outubro de 2010

NÓS, AS CRIANÇAS


NÓS, AS CRIANÇAS
Suely Pavan(*)
Nós, as crianças, adoramos basicamente uma coisa: Brincar!
Nem sempre é fácil arrumar companhia para brincar. Os pais hoje em dia andam ocupados demais para brincar com a gente. Eles chegam muito cansados do trabalho, e às vezes até irritados. Não sei direito o que acontece no trabalho deles. Minha mãe, por exemplo, outro dia estava brava, de dar medo. Ela está sempre correndo: trabalha e estuda, não sei direito o quê!
Nós, as crianças, vamos à escola, e lá é muito legal. Tem um monte de brincadeira. Saindo da escola a maior parte de nós faz várias coisas como nossos pais, aula de judô, natação e inglês... Passamos o dia fazendo este montão de coisas, mas o mais gostoso é chegar em casa e depois dos deveres poder brincar. Como nem todo mundo tem um irmão ou irmã, a gente aprendeu a brincar sozinho. Na internet também tem um montão de coisas legais pra fazer, além de conversar com os amigos. Meu pai disse que é para tomar cuidado, pois tem adulto que se faz passar por criança e é adulto. Ele disse que estas pessoas são muito perigosas. Na rua também, ele disse para tomar cuidado, hoje há muitos seqüestros e assaltos. Um menino lá da minha escola foi seqüestrado, e a gente ficou com medo de ser o próximo.
Minha professora da escola é muito bonita, e disse que sou um ótimo aluno. Minha mãe gosta muito quando eu vou bem na escola.
Ah! Tenho um amigo bem legal na escola, que adora jogar futebol. Eu quando crescer quero ser jogador de futebol e médico. Deve ser bom poder salvar as pessoas das doenças. Meu pai é médico e trabalha num hospital, ele diz que tem muita gente pobre que não é atendida. Será que as crianças também não têm atendimento?   
Nas férias de dezembro eu e minha irmã iremos para a Disney, este é o meu sonho. Tudo depende das minhas notas escolares, por isto estou estudando que nem louco. A minha irmã, só quer brincar com as bonecas dela, ela odeia estudar. Diz que a professora é chata, e que as pessoas da classe dela vive dizendo que ela é balofa. Ela quer emagrecer, mas não sabe como. Tem vergonha de ir à praia, acha que todo mundo vai ficar tirando “uma” dela, que nem na escola. Minha mãe falou que isto tem um nome em inglês que eu não lembro agora!
Ah! Tô zerando os meus games, e adoro jogar também. Jogo sozinho, aqui no prédio os pais nem sempre deixam os filhos ficarem uns na casa dos outros, porcausa dos adultos “maus”. Meus primos amanhã vêm para cá. Aí vai ser muito bom, eu adoro brincar com eles. Minha avó vai trazer aquele bolo de chocolate que eu adoro. Amanhã vou me esbaldar. Minha irmã disse que não vai comer nada, só maçã, para não engordar. Acho a minha irmã muito boba às vezes. Já notei que as meninas são muito bobas, meus amigos, os meninos são muito melhores.
Tenho quase certeza que amanhã eu vou ganhar um monte de brinquedos. Tomará, eu detesto ganhar roupas, meias então, afê!  
Meu pai disse que iremos acordar cedo, ele tem uma surpresa: O que será? Estou morto de curiosidade. Tomará que seja um cachorro. Sempre quis ter um cachorro para brincar e correr na praça.
Tchau! Bom Dia da Criança para você. Brinque bastante, criança tem que brincar. Todos os adultos chatos que eu conheci não sabem brincar. Tomará que eu não cresça como eles!  
(*) Este texto poderá ser utilizado em outros veículos desde que se mantenha a autoria e a forma de contato: www.pavandesenvolvimento.com.br

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Será preciso ir tão longe?


Será preciso ir tão longe?
Comentários sobre o filme “Comer, Rezar e Amar”

Suely Pavan(*)

O filme começa bem, mas o seu decorrer é de uma obviedade gritante. Ele pode servir para americanos robotizados, mas está longe de satisfazer as expectativas de brasileiros sacudidos. Além de tudo, o filme é extremamente longo, quase interminável.
A história é óbvia, como disse, e as saídas são aquelas manjadas: ir para bem longe com o objetivo de se encontrar. Fazem isto os executivos que são adeptos do ano sabático. Ficam um ano fora, viajando, com o objetivo de libertarem-se de condicionamentos restritivos. É como se a pessoa só soubesse viver nos extremos. No caso dos executivos, por exemplo, trabalham que nem máquinas, e depois se dirigem ao extremo oposto. Onde está o equilíbrio, tão necessário às atividades humanas?  
No filme, que é baseado no livro de Elizabeth Gilbert, a autora vive a crise dos trinta anos (crise, aliás, que apenas representa mais um modismo importado dos E.U.A.) e após um casamento sem sentido desfeito, e um namoro tapa-buracos após o casamento, resolve viajar para a Itália, Índia e depois Bali (onde por sinal começa o filme) durante um ano. No filme ela aparece como uma escritora, mas ninguém explica como ela consegue se auto-sustentar durante o tempo que passa viajando. Outra coisa incrível, é que um escritor costuma registrar aquilo que vê e sente e no filme raramente Julia Roberts (atriz que interpreta a escritora) faz isto! Imagino que ela deva ter uma memória fantástica!
Ao chegar ao primeiro país, a Itália, ela fica fascinada com a comida e com o povo apreciador dos prazeres da vida. Uma das cenas me lembrou a lotada Rua Direita aqui em São Paulo, e as pizzarias do Brás. Um brasileiro nato, sem dúvida alguma, não se sentiria deslocado naquele país e muito menos se encantaria com o sentido de prazer, tão comum a nós brasileiros. Mas no filme, a escritora se encanta e faz grandes descobertas acerca de si mesma.
Brasileiros têm a sua essência em três povos festeiros: italianos, portugueses e franceses. Mas, nos últimos anos, têm importado comportamentos americanizados. Quando se perde a essência, o que ocorre é a perdição: buscamos aquilo que não precisamos e nos entupimos de fórmulas mágicas.
Quando o li o livro Inteligência Emocional do Daniel Goleman, por exemplo, fiquei desanimada ao ver que ele se encantou com um motorista de ônibus que cumprimentava a todos e era simpático. Coisa, aliás, bem comum aqui no Brasil. A partir disto o Daniel formulou toda uma teoria recheada de métricas e tornou o livro e a teoria o maior sucesso. Sei que os americanos são bótimos no que diz respeito a métricas, leis, e padrões, mas são absolutamente inexperientes no que concerne ao comportamento inter e intrapessoal. Eles têm a tendência a parametrizar comportamentos, e o mais espantoso, é que nós brasileiros compremos este tipo de coisa. Será que estamos nos esquecendo de nossos potenciais?
O filme “Comer, Rezar e Amar”, é recheado destas pílulas de autoajuda americanas. E o mais incrível é perceber que estas fórmulas prontas de relacionamentos ou Best Sellers americanos tem emplacado rapidamente aqui no Brasil. Foi assim com a seqüência vampiresca e com tudo que vem de lá: filmes, músicas, teorias de administração  e livros. Jogamos literalmente no lixo a nossa cultura européia.    
Bom, depois da Itália, a escritora vai à Índia, e descobre que não precisa ficar entoando mantras ou fazer greve de silêncio através de um crachá para descobrir quem é. Nesta seqüência do filme quase caí da cadeira, ao ver tamanha obviedade.
Ao retornar a Bali, vai atrás do Xamã que conhece no início do filme, e depois encontra o amor de sua vida. Claro, que a princípio resiste a ele, mas depois se entrega.
Para quem gosta de autoajuda e acredita em tudo que os americanos dizem ser verdade, o filme, e o livro (que não lerei) é um prato cheio.
Para os demais minha recomendação como profissional do comportamento humano, devidamente formada e estudada é:
- Faça psicoterapia com o objetivo de encontrar-se. Você não precisará atravessar o mundo por causa disto. Não se auto engane: Se você quiser dar a volta ao mundo, o faça. Mas, não engane a si mesmo e nem ao outros dando desculpas esfarrapadas de que está em ano sabático ou quer se auto-descobrir. Vá viajar sem culpa, e sem desculpas!
-Cuidado com os extremos. Quem leva uma vida extrema costuma buscar saídas também extremas. Já reparou que aqueles que aprontaram muito na vida acabam sempre se encantando com religiões fundamentalistas? Se você tem um buraco existencial, cuide dele ao invés de buscar uma solução extrema e robotizante. Quanto maior o vazio existencial, maior também é a busca por uma solução mágica e hipnotizante. Cuidado!
- Fuja de todos aqueles que te dão soluções comportamentais baseadas na padronização. Dores precisam ser vividas, e ninguém sai com manual de instruções da maternidade. Cada ser humano é único, portanto não existem soluções que se encaixem em todos e para todos. Mensagens bonitinhas são normalmente ineficazes. Quem já passou por grandes dores na vida, sabe que frases de autoajuda remediam, mas não solucionam nenhum problema.
-Leia filosofia, ela te ensinará a questionar a realidade, ao invés de aceitar tudo que dizem que é para você ler ou fazer. Se não souber o que ler, vá a uma biblioteca, ao invés de procurar nas prateleiras dos “mais vendidos”. Encantamento puro é burrice. Exerça a sua inteligência. Admire autores que te fazem pensar, ao invés dos que te dão solução para tudo.   
- Óbvio que comer, rezar e amar são importante para a vida. Os italianos assim como os brasileiros sabem que o prazer da comida, por exemplo, é importante, mas ultimamente vivem assombrados com o medo americanizado de engordar. Lembre-se que há muito mais americanos gordos, do que brasileiros e italianos!
Ninguém precisa ir até à Índia para entender o valor de uma oração. Reze do teu jeito, acredite-se pequeno e confie que há um poder superior. Isto faz bem pra alma!
Amar e permitir-se amar, é bom demais. Claro, que o amor e o relacionamento afetivo em nada se parecem com um filme. No final das contas a autora do livro, apenas queria encontrar um amor, mais nada. Se tivesse admitido isto para si mesma, seu caminho teria sido muito mais curto e fácil.  
Lembre-se que o oposto do amor é o medo, e não o ódio. Para se ter um amor, é necessário vencer o medo. Assista ao belíssimo “O Segredo dos seus Olhos”, e você verá do que eu estou falando por aqui. Aliás, ao assistir ao filme “Comer, Rezar e Amar”, a todo o momento eu me lembrava deste outro filme. Este sim, inteligente questionador e remexedor. 



quinta-feira, 23 de setembro de 2010

DENTES SEPARADOS



Suely Pavan (*)
Desde que me conheço por gente tenho os dentes separados. E nunca me incomodei com isto e nem sequer quis corrigi-los. Acho que se fizesse algum procedimento estético no sentido de fechá-los nem sequer me reconheceria. Sou assim, tenho os dentes assim, e ponto final.
A semana passada, porém, ocorreu algo que julguei no mínimo estranho. Fazendo uma pesquisa pela internet descobri sem querer (não era isto que eu estava pesquisando) que este tipo de dente chamado tecnicamente de diastema ou gap teeth (fica mais chique em inglês) está virando uma tendência de beleza. Como está virando moda, um blog resolveu fazer uma matéria à respeito e também coletar informações de seus leitores, e sinceramente fiquei chocada com os resultados. A maioria das pessoas numa atitude pra lá de preconceituosa acha horrível este tipo de dentes, algumas consideram até anti-higiênico. Confesso que ao longo de minha vida nunca tive problemas por ser deste jeito. Nasci e cresci com os dentes separados, eles sempre foram assim. E traumas nem rejeição social fizeram parte de minha vida. E sinceramente se alguém se incomoda com eles, a minha resposta é: Dane-se!
Quando eu era jovem um dentista inclusive queria me levar a um congresso de odontologia. Ele me disse que eu era a única paciente dele que não tinha traumas por possuir o diastema. E não possuía e nem possuo mesmo, adoro tomar Coca-Cola e prender o canudo nos espaço entre os dentes.
Bom, mas agora os tais dos dentes abertos estão virando moda. Uma das maiores tops mundiais a Lara Stone, os possui, e um monte de celebridades também. Para escrever este texto, resolvi dar uma pesquisada, e vi que o assunto está na onda do momento, e descobri um monte de gente famosa que tem os dentes como o meu, vamos à listinha: Vanessa Paradis, esposa do Johnny Deep, cantora e atriz, e que agora estará na campanha de maquiagem da Chanel; a modelo Georgia Jagger, filha do Mick Jagger; as francesas Brigitte Bardot e Jane Birkin; a atriz e modelo Lauren Hutton, que foi capa da revista Vogue por 25 vezes e também um dos símbolos de beleza dos anos 1970; a poderosa ex-secretária de estado dos E.U.A. Condoleeza Rice; Anna Paquin a atriz premiada de True Bood e o discreto diastema de Madonna. Enfim, a lista é grande, e como você percebeu nela não figuram brasileiros famosos. Os brasileiros são muito ligados a modas e modismos, tais como os clareamentos dentais, que fazem as bocas parecerem túneis e a correção dos dentes. Que pena eles ficaram fora de moda! Snif, snif, snif!
Claro, que quando o assunto é moda, haverá pessoas que irão criar uma aberturinha nos dentes através de procedimentos juntos aos dentistas estéticos.  Que coisa horrível hein? Mas, o que as pessoas não fazem para estar na moda?
Da minha parte continuarei a ser o que sempre fui: assumirei os meus dentes da frente com espaço!
O mais interessante disto tudo, é que em função do que escrevi no blog que fez a matéria e a pesquisa, acabei por ser procurada pela revista Isto É, que fará uma matéria sobre o tema. Não sei se o meu depoimento sairá por lá, mas achei interessante uma das perguntas feitas pela jornalista: Se, na infância, eu tive apelido em função da abertura dos dentes. A resposta foi não.  
Acho que o meu depoimento foi muito sem graça para ser publicado na revista. Não tenho traumas, e nem problemas, e só lembrei que tenho dentes separados em função do “fuzuê” atual em torno do assunto. É isto que acontece quando a gente se aceita exatamente do jeito que é, sem se comparar com ninguém, ou querendo ser o que não se é. Duvido que um negro queira ser branco, e que uma pessoa de estatura baixa fique pensando a todo o momento em sua estatura, por exemplo. E claro, que quanto mais aceitação sobre nós temos, menos percebemos ou damos atenção às opiniões ou preconceitos alheios. Algumas modas tendem a tornar as pessoas iguais. Gente que freqüenta academia, por exemplo, tem corpo muito parecido. Gente que faz plástica tem cara comum e plastificada. Gente que faz preenchimento exagerado na boca fica com cara de pato. E por aí vai.  Particularmente eu aprecio a singularidade, a marca registrada de cada um.  Ainda sou como Chanel, que valorizava o estilo, ao invés da padronização.   
  
(*) Este texto poderá ser utilizado em outros veículos desde que se mantenha a autoria e a forma de contato: www.pavandesenvolvimento.com.br  

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

ENTE O AMOR E A DOR

         Suely Pavan
Existem amores que trazem um único benefício: A dor.
Mesmo sentindo dor, muitas mulheres e homens também não abandonam os seus algozes. Dizem que o coração não escolhe a quem amar. Eles têm razão: O coração não escolhe, mas a razão sim!
Muitas vezes é impossível relacionar-se com quem amamos. Os casos são múltiplos, e vão desde desqualificações até agressões físicas e psicológicas. Quando o amor traz mais sofrimento do que prazer, nos mostra claramente que é impossível tornar a relação viável. O melhor caminho, nestes casos, no qual o relacionamento torna-se impossível é a separação. O dor virá na certa, mas é possível continuar a amar alguém, sem se relacionar com esta pessoa que nos ocasiona sofrimento.
A grande confusão que a maioria das pessoas faz se instala justamente aí: Amor é uma coisa, e relacionamento é outra diferente.  
Um amor só torna-se nocivo se o relacionamento também o é. À medida em que se opta por terminar um relacionamento, apesar do amor ainda existente, faz com que tomemos uma atitude inteligente: A de continuar amando, apesar da distância. Neste tempo separados é possível voltar-se para si mesmo, fazendo coisas que nos dêem prazer e alegria, ao invés de só pensar no outro. Esta auto-nutrição faz com que sejamos donos daquilo que nos faz bem, sem depender do outro para satisfazer necessidades. Alguns, e eu diria a maioria, com o tempo – senhor e mestre das decisões – deixam de amar seus algozes. Com o tempo “este grande amor” passa a ser apenas uma página virada. Muitos ainda dizem: Nossa, como fui capaz de me apaixonar por uma pessoa destas? Passam a questionar esta escolha nociva que agora só pertence ao passado. Fazendo assim tornam –se aptos a não confundir amor com sexo, e esta mistura com relacionamento.
Relacionamento para ser bom, não vive e muito menos sobrevive como resultado de uma paixão prejudicial.  Só os masoquistas ou aqueles propensos ao sofrimento não querem o melhor para si mesmos, e justificam atos ruins como sendo amor. Quem ama cuida, e amor para sobreviver precisa de no mínimo de duas pessoas interessadas em sua manutenção e crescimento.
Tem gente que mantém um péssimo relacionamento apenas para não sentir a dor da separação. E agindo desta forma vive a dor de uma relação doentia e até perigosa. Ele não vai mudar, ela também não mudará. Não seja ingênuo, as pessoas só mudam quando querem. Mudanças são coisas bem concretas e visíveis. A maioria dos relacionamentos pobres está calcada em auto-engano e justificativas alienantes para o comportamento do outro. As mulheres, principalmente, têm o péssimo hábito de justificar o comportamento de seu par, e costumam dizer: ele é assim porque trabalha muito; ele está agressivo, pois não passou na prova... Agindo desta forma tudo toleram e ganham com isto apenas um relacionamento ruim. Vivem sozinhas, mas têm medo de enxergar esta verdade por medo da solidão. Não percebem a solidão em que já vivem.  
A razão e o amor próprio ainda fazem uma enorme diferença no momento de escolher um relacionamento. Os relacionamentos apenas sobrevivem quando além do amor há também a afinidade. Impossível conviver com alguém absolutamente oposto a nós.