sexta-feira, 13 de agosto de 2010

DANDO O FORA NA PATROA



Por Suely Pavan
São sete horas da manhã e você já acordou faz mais de duas horas. Está tinindo e preparadíssima para aquela reunião com o novo cliente, importantíssimo para a empresa em que trabalha. Ontem à noite, você se organizou e depois que as crianças dormiram, passou a revisar alguns aspectos da pauta da reunião. Está tudo ok! Você feliz da vida começa a se arrumar, precisa estar perfeita neste dia. Na noite anterior já havia separado a roupa que iria usar na reunião de hoje. Ouve o bebê chorar e vai acudi-lo. Ele acorda e você dá de mamar. Seu marido saiu faz cinco minutos de casa, ele trabalha e não pode chegar atrasado. Em casa está apenas você, já prontíssima para a reunião, e as crianças. São oito horas e nada da empregada chegar. Você pensa: Coitada! Deve ser a condução. Continua a esperar a empregada.
São 8:30 e nada da empregada chegar. Você tem que sair às nove pontualmente para chegar à 10:00 à reunião. Todos contam com você na empresa, assim como você conta com os serviços bem pagos de sua empregada doméstica.  A empregada nem sequer liga. Você começa a se impacientar e a pensar: Se ela não chegar à tempo, como ficarão as crianças? Se ela tivesse me avisado antes eu poderia providenciar alguém para ficar com ela.
Às 8:45 você resolve ligar para o celular que você deu à empregada para emergências. Ele está desligado, e você pensa: Será que aconteceu alguma coisa: incêndio no ônibus, assalto, doença... Começa a ficar desesperada. Pega o telefone e liga novamente para o celular da empregada e deixa recados (três ao todo). Nenhuma resposta. Resolve ligar para o seu chefe e avisar o que está acontecendo. Ele lhe dá um “sermão” daqueles e diz que você deveria ser mais organizada. Você concorda com ele chorando, afinal precisa e gosta muito do seu emprego. Tenta ligar para a vizinha, para a sua mãe, e ver quem pode ficar em sua casa com as crianças. São 9:30 e você continua em casa sem mais saber o que fazer. Hoje ninguém está disponível. Já roendo as unhas e suada de desespero ouve um barulho na maçaneta, é a sua empregada chegando. Muito brava você vai ao encontro dela. Ela nem sequer lhe dá bom dia, e vai se trocar, você a espera e pergunta: O que aconteceu você está muito atrasada?
Ela responde: Num aconteceu nada, por quê? Num to tão atrasada assim.
Você retruca: Você poderia ao menos ter me ligado, tenho uma reunião importante hoje.
Ela responde: Quer saber dona, acho melhor eu ir embora a senhora é muito chata com este negócio de horário. E eu não gosto de dar satisfações e ser submissa a ninguém. Odeio bronca, e não to acostumada a levar nenhuma. Não está contente me manda embora. Eu não tenho obrigação de ouvir este monte de bronca.
Você sem entender a reação violenta dela tenta argumentar: Então você acha justo chegar atrasada deste jeito e nem sequer falar nada?
Ela responde: Sei lá se é justo ou injusto. Só sei que falei pra senhora na entrevista: EU NÃO GOSTO DE PATROA QUE DÁ BRONCA! Arrume uma que goste, ou me aceite assim. Pra cima de mim não violão! Não tá feliz me manda embora.
“Mas você não precisa trabalhar?”, você espantada pergunta a ela.
-Minha filha, precisar eu preciso, mas humilhação eu não sofro não. Quer que eu fique? Eu fico, mas sem bronca.
São 10:20 você resolve se acalmar pede desculpas para a empregada e vai para o trabalho.  
Ao chegar seu chefe a espera na porta de sua sala com olhar evidentemente irritado.
Você o cumprimenta ele fecha abruptamente a porta e lhe diz: Acho isto lamentável, sua sorte é que o cliente ainda não chegou. Não espero que uma profissional priorize desta forma sua vida pessoal, e muito menos se atrase para um evento tão importante. Quem você pensa que é para afrontar a todos nós desta companhia? É a dona da empresa, faz o que quer e chega no horário que bem entende?
Com a cabeça baixa você tem vontade de responder da mesma forma que sua empregada, mas sabe de antemão a resposta que seu chefe lhe daria. É salva pelo gongo, a secretária de seu chefe avisa que os clientes chegaram.
A reunião começa e apesar de tudo você vai preparada para enfrentá-la. Os clientes adoram e resolver fechar negócio com a sua empresa, eles também elogiam o seu profissionalismo. Seu chefe não toca mais no assunto. Você finalmente vai para a casa e duas horas mais cedo.
Ao chegar lá encontra a empregada sentada no sofá assistindo TV, a sala está uma bagunça.
-Pegue suas coisas já e vá embora, não quero você mais aqui!
Ela ainda tenta te tripudiar, mas não adianta você a interrompe dizendo: Se você não dá valor ao seu emprego, eu dou ao meu.
“A senhora é muito estressada mesmo”.
“Sou mesmo, sou tão estressada que não lhe darei referências, e ainda vou processar sua antiga patroa por ter me dito que você era responsável. Com apenas três meses trabalhando aqui você já está deste jeito? Trabalhar como empregada doméstica é um trabalho e não uma esmola. Eu não tenho privilégios de nenhum tipo em meu emprego, por qual razão você acha que pode tê-los?”
Ela sai de sua casa lhe xingando e dizendo que você só sabe humilhar as empregadas e fazê-las de escrava.  Você pensa:
- Se ela trabalhasse em uma empresa, não duraria um dia!
      
 PS: Se eu fosse contar todos os casos de problemas com empregadas domésticas, este blog seria pequeno!