segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

AS FAMÍLIAS DOS USUÁRIOS DE DROGAS



AS FAMÍLIAS DOS USUÁRIOS DE DROGAS 

Suely Pavan Zanella
Hoje começa em São Paulo a internação involuntária dos usuários de drogas, que é feita por solicitação da família e avaliada por um promotor em 72 duas horas. Esta prática é bem comum nos Estados Unidos e Europa. Ela difere da internação compulsória que é feita por médicos, independentemente da opinião ou solicitação da família.
Ou seja, na internação involuntária o foco é a demanda familiar.
Há pessoas que são contra este tipo de internação e outras a favor.
O próprio Conselho Regional de Psicologia S.P. é contra e hoje protesta em frente ao Cratod (Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas do Estado). Sua eficácia é, segundo alguns especialistas, rara e o índice de recuperação é de apenas 2%.
Alguns desconfiam também da medida adotada pelo Governador de São Paulo, chamando-a de higienista como foi há um ano quando usuários de crack foram retirados à força pela polícia e hoje estão instalados tranquilamente em diferentes bairros da cidade de São Paulo.
Outros acreditam que se deva cortar o mal pela raiz, ou seja, não permitindo que o crack e outras drogas cheguem às fronteiras brasileiras.
As questões são múltiplas e os interesses diversos. E nesta questão parece que cada um só olha o seu próprio lado.
Este texto não tem o objetivo de dizer que o usuário de crack deva ser ou não internado à força, mas sim lançar um olhar empático sobre aqueles que parecem ser esquecidos, e que sofrem diretamente os efeitos de ter um filho, uma conjugue ou um amigo usuário desta maldita droga.
Para lê-lo é preciso ser empático, ou seja, ser capaz de colocar-se no lugar do outro.
Quantas mães em São Paulo andam atrás de seus filhos, desesperadas e sem saber o que fazer com eles?
Crianças, adolescentes e adultos de diferentes classes sociais que somem de casa e vão atrás da droga. O que fazem estes pais?
Temos a errada mania de julgá-los dizendo que a culpa é deles. Ou então de generalizar achando que o uso do crack está ligado a condições precárias de vida. O crack está presente na pobreza, na classe média e na riqueza. Entrar nele é uma opção, porém sair dele é difícil, pois seus efeitos são dilacerantes, e raramente o usuário por vontade própria consegue fazê-lo. E eu fico muito triste quando vejo usuários pelas ruas, como se fossem zumbis.
As famílias dos usuários também ficam preocupadas com o envolvimento dos filhos com a criminalidade. Na semana passada um motorista foi simplesmente executado por um usuário de crack. Após matar este motorista ele assaltou outro carro, levou o notebook do motorista e o vendeu por três pedras.
São comuns também não só as agressões físicas aos familiares como os incontáveis casos de assassinato da família. Basta você procurar no Google e verá quantos pais e parentes foram aniquilados por usuários de crack.
Neste meu exercício empático a conclusão que chego é que não deve ser nada fácil ser mãe ou pai de um usuário de crack. Talvez uma pessoa rica tenha condições de internar um filho contra a sua vontade, mas como fazer e a quem procurar se você não tem dinheiro para tal? Este tipo de clínica costuma ser muito cara!
Como escrevi no início do texto honestamente não sei se a internação involuntária funciona ou não. Só sei que é uma esperança e talvez a única e última para os familiares destas pessoas.
Se usar drogas é uma opção para algumas pessoas e sair delas também o é, talvez tenhamos que adotar uma nova postura: a do bem comum, ao invés de pensar apenas nos direitos dos usuários.
Quando vejo pensamentos tão lineares me pergunto: E os afetados o que devem ou podem fazer?
A opção de usar drogas pode ser uma decisão pessoal, mas não sejamos cegos ao imaginar que ela afeta apenas aos usuários. E as famílias? E nós a sociedade que não vemos cura para este mal e somos diariamente obrigados a conviver com ele através de ações violentas e impensadas por parte dos usuários?
Outro dia li um depoimento de um ex-usuário de crack que passou sobre o corpo da própria mãe morta vítima de um enfarto fulminante quando acompanhava o filho para comprar crack. Ela não sabia mais o que fazer e para ficar como filho resolveu ir junto com ele em todos os lugares.
Somos responsáveis por nossas escolhas e também pela forma como a mesma afeta os outros.
A lei antifumo, por exemplo, proibiu o uso do cigarro em lugares públicos e fechados e ganhou adesão da população criando uma espécie de ojeriza social contra os fumantes. Por qual razão somos tão condescendentes com usuários de drogas que prejudicam suas famílias e toda a sociedade com a suas escolhas?

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

DE VOLTA AOS TEMPOS DA SENZALA: SOBRE O TEXTO “VIAGEM LEVANDO BABÁS”



DE VOLTA AOS TEMPOS DA SENZALA: SOBRE O TEXTO “VIAGEM LEVANDO BABÁS”

Suely Pavan Zanella
Como se não bastasse o artigo da Danusa Leão que comentei aqui, sob o título de “Riquismo à Brasileira”, hoje me deparo com outra “pérola” lamentável, aquele que discrimina funcionários. E que é típica de uma classe media alta decadente que só quer lucrar através da exploração de seus empregados.
O texto "Viagem levando babás" além de mal escrito contém comentários assustadores e que devem perambular a cabeça de muitas patroas que querem ter uma babá, mas as tratam de forma discriminatória.
Tem babá quem pode pagar. Ter uma babá para acompanhar em viagens e tratá-la com economia e como um ser de segunda categoria é no mínimo desumano, para não dizer cruel.
O texto contido no blog: http://viajandocomfilhos.com.br/dicas/viagem-levando-babas/ é recheado de discriminação. Se vocês tiverem a sorte de abrir o tal blog ( ele vive fora do ar) observe o rosto da babá nas fotos.
Bom, leia o texto e tire você mesmo as suas conclusões. A autoria é de Valeria Rios, que até o presente momento eu não consegui descobrir quem é!

“Ao contrário da Raquel, não sou totalmente independente das babás. A minha irmã quase sempre viajou sozinha com as suas três filhas.
Naquela época eu achava que ela já era meio doida, e agora, com um menino de quase dois anos e um bebê acho que ela era mesmo completamente louca.
Na minha opinião, em algumas ocasiões as babás são extremamente úteis, em outras são dispensáveis e em outras ainda são item de “terceira” necessidade. Enfim, acho que se bem ensinadas, elas podem quebrar um galho danado e nem sempre vão representar um novo integrante à família, porque pra mim família é pai, mãe e filhos e acho no mínimo estranho aqueles que tratam a babá como parte da família (desculpe-me quem pensa o contrário).
Baseada na minha pequena experiência de algumas viagens com babás, pensei em escrever este post porque minhas amigas sempre me perguntam como fazer, como proceder, o que pode, o que não pode e etc…
Bom, a primeira vez que levei a minha foi a uma viagem pra São Paulo, ia tirar o visto pros Estados Unidos do Luiz Gustavo e não queria deixar ele em BH pq estava amamentando, o meu marido queria sair a noite com os amigos em São Paulo e também pq até hj não consigo viajar sem meu pequeno e nem meu marido me cobra, graças a Deus. Enfim, um dia a minha babá comentou que uma amiga tinha viajado de avião, sonhando alto, então, falei com o Gustavo e achamos passagens super baratas pra passar um final de semana estendido em São Paulo. Ela delirou, claro, na ida no avião perguntou se podia aceitar o lanche, se tinha banheiro, se ela podia escolher aonde sentar, enfim, prefiro assim do que as folgadas que vão logo pedindo refrigerante ou sei lá o que e ainda adoram falar suas experiências pessoais de viagens ao exterior.
A estréia da minha babá foi logo no Fasano (www.hotelfasano.com.br) em um quarto conjugado espetacular, era caro, óbvio, mas o Emiliano (www.emiliano.com.br) estava me obrigando a pegar dois quartos, o que ficaria muito mais caro. Enfim, deixei claro pra ela que aquele hotel era caríssimo, então não era pra ficar pegando coisas do frigobar e etc, até porque dou muito valor pro meu dinheiro e não quero uma babá pedindo room service sem a minha autorização, o que acontece direto por ai.
O primeiro ponto que deve ser deixado claro em uma viagem com babás é este, ela não é obrigada a saber o que pode ou o que não pode, o que vc gosta e o que vc não gosta, então facilite a vida dela e fale tudo, nos mínimos detalhes, uma das inúmeras lições que a Raquel me deu sobre como lidar com babás é que elas não nascem sabendo, não são obrigadas a saber como vc gosta ou o que vc quer que elas façam, então seja clara, fale com jeito e educação, mas seja clara em todos os aspectos. Então na minha primeira viagem com ela eu falei que as coisas no frigobar são sempre muito caras então eu só pego em caso extremo, meu pai me ensinou assim e é assim que eu quero que meu filho aprenda, só pode pegar água quando eu esqueço de comprar na rua, meu marido não gosta que eu seja tão pão dura, mas eu não estou nem ai.
Segundo ponto, acho que não tem problema algum vc leva-la pra comer no mesmo restaurante ou ate leva-la em algum lugar mais simples e depois vcs irem a algum lugar caro demais, acho que ai impera o bom senso. Por exemplo, o Gustavo não gosta que a babá fique sentada na frente dele ouvindo nossas conversas enquanto ele toma um vinho, então o que eu faço, se ela vai comer no mesmo restaurante, enquanto ele escolhe o vinho eu mostro o cardápio pra ela, ajudo a escolher, pergunto tipo assim, hj vc quer carne ou peixe  e já peço, mesmo porque o Guto não fica sentado mais que 10 minutos, já que nesta primeira viagem ele estava com 10 meses, então enquanto ela come o Gustavo passeia com o Guto enquanto eu faço companhia pra ela e depois trocamos, ai sim a gente pede o nosso e etc…Em outras oportunidades em que vc quer que ela coma antes porque o restaurante é caro ou porque vão outros casais vc pode dizer problemas, tipo assim, “hj vamos a um restaurante com a comidas muito diferentes que vai demorar ou muito caro e etc, então vamos passar pra vc comer em algum lugar, vc prefere pizza ou Mc Donals”, porque, lembre-se ela está trabalhando.
Vale também registrar a minha opinião sobre doces e guloseimas esporádicas em geral: sou alucinada por doces, sempre fui e acho um absurdo quem fica regrando a babá de comer doces, picolés, enfim, tudo de gostoso que vc vai oferecer pro seu filho, então pra mim, na praia, ou no Minas se seu filho pedir picolé acho questão de educação e gentileza vc oferecer pra ela também, da mesma forma se pararem pra tomar um sorvete, comprar uma torta em alguma doceria ou etc, pq acho que deixar a pessoa que cuida do seu filho aguada é maldade. Ressalte-se que esta é a minha opinião, tem gente que não vê problema nenhum em comprar algo só pra criança, ai vai da opinião de cada um.
A segunda viagem que fizemos levando a babá fomos pro Rio de Janeiro e levei mais porque ela me falou um dia que o sonho da vida dela era conhecer o Rio e, como eu já estava grávida de quatro meses, achei que seria uma boa idéia sentar na praia e ler revista, já que um mês depois iríamos pra Miami só nós três e foi ótimo. Nesta segunda viagem ela ficou encantada, me mandou mensagem quando chegamos agradecendo e eu acho bonitinho a pessoa dar valor pq barato não sai uma viagem dessas pra gente. Então , mais uma vez fica a dica: deixe tudo claro, pra não se arrepender depois, por exemplo, como ela vai pra praia, dê todas as roupas que ela vai usar, inclusive o maiô da praia, pq ela não é obrigada a ter todas as roupas e vc ainda gostar do gosto dela.  Na minha viagem do Rio, por exemplo, falei tudo o que ela devia usar, até a mala eu que dei, e dei um maiô maior, mais comportado mas mesmo assim ela ficou constrangida de usar e colocou um short preto por cima que estava furado, ai claro, meu marido falou na hora, no meio da praia, pq vc deu um short furado pra ela usar na praia? Eu mereço, nada passa sem ele ver, mas ficou a lição, na terceira viagem dei um short também bonitinho que combinava com o Maiô e pedi pra ela experimentar antes pra ver se ela gostava.
Achei que no Rio de Janeiro foi muito útil a presença dela, primeiro pra andar atrás do Luiz Gustavo na areia, pq ele gosta de ver as coisas então eu podia sentar, ver revista e ficava olhando ele ir e vir da beirada no mar; outra coisa é fazer castelo na areia, a minha babá é bem nova, acho isso fundamental pq criança gosta de brincar e babá que não brinca, não senta na areia e faz castelo pra mim não serve e as vezes eu não gosto de ficar toda suja de areia. No período da tarde então que ele dormia por três horas eu não precisava ficar dentro do quarto e ficava na piscina com o Gustavo e vendo a vista e a noite então, ela foi indispensável pq o Guto não dorme bem no carrinho, acorda de 30 em 30 minutos então a gente podia sair tranquilos e eles ficavam no hotel.
Quarta dica: na hora do café da manha peça a ela pra descer primeiro e comer tudo o que quiser no bufê, inclusive eu falo pra comer bastante pq está incluído e o almoço vai ser tarde, pra ela não ficar com fome muito cedo, então, qd eu acordava, eu e o Gustavo ficávamos com o Guto no quarto, ela descia e depois a gente se encontrava no café da manha e ela ia dando um mamão ou iogurte pro Guto enquanto eu e o Gustavo tomávamos café. Detalhe: pq tem uma coisa que eu não suporto ver e vejo direto é a mãe se matando correndo atrás do menino colocando abaixo o restaurante enquanto a madame da babá está lá sentada, comendo calmamente, e conversando com o marido. O meu não gosta e eu também não, então ela come primeiro ou depois, nunca junto pq criança não fica parada olhando pro tempo, eles querem andar e também precisam comer algo no café da manhã.
Quinta dica: sempre leve biscoitos, chocolates pra ela também porque facilita muito à noite, vc já vai ter que levar pro seu filho mesmo alguma coisa ai já leva pra ela junto, eu sempre quando saio a noite pergunto se ela quer que eu traga algo pra ela, tipo um sanduiche ou algum lanche.
Uma outra experiência que achei bem interessante também foi contratar uma babá local. Em uma oportunidade quando fomos pra um casamento em Gramado eu decidi levar o meu filho de última hora e não tinha reservado hotel pra minha babá e achei super interessante a idéia de contratar uma local. O ideal nestes casos é que ela seja indicada pelo próprio hotel e de responsabilidade dele e que seja a mesma todos os dias da viagem. No meu caso, nesta viagem minhas sobrinhas foram também então o meu filho já tinha diversão garantida, então o que ele precisava mesmo era uma pessoa pra ficar olhando ele não se machucar enquanto brincava com as primas e quando ele dormisse a babá ficaria olhando e me avisaria na festa se ele acordasse querendo mamar. A babá que contratei era super bem educada, falava super direitinho e tinha o maior jeito com crianças então esta minha primeira experiência foi super positiva.
Como sexta e última dica: seja sincera, fale na hora mas com muita educação se vc não gostou quando ela pediu um prato tal em um restaurante, quando ficou sentada na única cadeira disponível na praia, ou quando vc teve que correr atrás do seu filho enquanto ela ficou horas sentada tomando café, porque é importante lembrar que mesmo cuidando do bem mais valioso que vc possui ela está trabalhando e em uma relação de trabalho os patrões podem chamar a atenção dos funcionários sem que isso represente um grande problema ou uma ofensa.
Mas tudo o que disse depende muuito da babá, pois algumas babás com muita experiência podem proceder como faziam na família anterior onde trabalhavam, ou estarem “mal acostumadas”e isso pode não ser adequado para sua família. Ou seja, se a outra família dava um quarto exclusivo para a babá ou deixava a babá sentar no restaurante e escolher entrada, prato principal, sobremesa, e até cerveja no clube (como tenho visto), ela vai achar que na sua família também é assim. Então mais uma vez repito que ser clara é essencial. Outra coisa é que se a relação já estiver estremecida antes da viagem, qualquer coisa que a moça fizer vai te irritar mais ainda pelo excesso de convivência e ao mesmo tempo mesmo que esteja adorando sua babá na sua cidade após a viagem pode passar a odia-la também pelo excesso de convivência.”
Nojo e repúdio total de minha parte a este texto e principalmente a esta forma de pensar que remete somente aos tempos da senzala.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

TRÁFICO DE PESSOAS NO BRASIL



TRÁFICO DE PESSOAS NO BRASIL


Suely Pavan Zanella
A novela Salve Jorge de Glória Perez aborda um tema bastante preocupante: O tráfico de pessoas.  
Uma realidade que assola vítimas invisíveis à maior parte da sociedade: Mulheres pobres e com baixíssima escolaridade (*). Vítimas que iludidas ou coagidas caem nas garras dos traficantes. Normalmente mulheres aparentemente confiáveis que aliciam as suas vítimas em locais pobres.
Segundo o Ministério da Justiça o tráfico de pessoas é:
O recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo à ameaça ou ao uso da força ou outras formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra para fins de exploração.
Em dezembro de 2012 o jornalista Roberto Cabrini fez uma excelente matéria sobre “Venda de Pessoas” em seu programa Conexão Repórter.
Nesta matéria mães vendem seus filhos ainda bebês a uma aliciadora influente em uma pobre região do Brasil.
A pobreza aliada à ignorância e à promessa de ganho financeiro torna o tráfico humano relativamente fácil para aqueles que dele vivem.
Fico imaginando a quantidade de pessoas desaparecidas em nosso país e que por falta de uma investigação efetiva não foram vítimas deste tipo de tráfico. Jovens que “caíram” na ilusão de serem modelos no exterior. Crianças que foram sequestradas para serem adotadas por altas quantias em países europeus...
Toda a vez que assisto à novela Salve Jorge, porém uma dúvida paira sobre minha cabeça: Como uma pessoa pode cair num golpe destes?
E logo me veem à mente algumas cenas que presenciei quando estive num Congresso em Recife em 1999.
Para transitar pela cidade eu contratei um motorista de táxi, o Davi. Uma figura que conhecia muito bem os meandros da cidade e sempre nos contava histórias sobre a realidade cultural e a pobreza existente no interior de Pernambuco.
Logo que cheguei à cidade fui surpreendida por um grupo de garotas, que não passavam de 12 anos, dançando alegremente na porta do hotel em que me hospedará.
Ao comentar o fato com David ele me disse que Recife era uma cidade com alto índice de prostituição infantil. Não sei se hoje ainda é assim, mas cansei de ver cenas de meninas e meninos nas ruas de Recife prostituindo-se às vistas de qualquer um. E também não vi nenhuma entidade ou policiais reprimindo o fato.
Um dia resolvi perguntar ao David por qual razão isto acontecia por lá.
A resposta da David me surpreendeu. E talvez acadêmicos e donos de entidades em defesa de menores, ao invés de fazerem conjecturas teóricas à respeito do assunto, devessem botar o pé na lama ou na seca nas cidades interioranas do Brasil. Em que somente a televisão dá acesso “a um outro mundo”, normalmente glamouroso e cheio de oportunidades. Locais onde não há escolas, em que autoridades policiais são omissas ou mancomunadas com exploradores como se vê no filme “Anjos do Sol”, e em que prevalece a pobreza, a ignorância e obviamente o desespero.
A TV, nestes locais, deve parecer mais colorida do que realmente o é.
David me disse que quando ele, um simples motorista de táxi, chegava à sua cidade natal no interior de Pernambuco era imediatamente assediado por dezenas de garotas simplesmente por ter um táxi. Ele me disse que estas meninas viviam a ilusão da novela em que moças pobres são “salvas” de suas precárias condições financeiras por homens apaixonados.
Todas sem exceção, segundo ele, esperavam o mocinho salvador que viam na tela da TV. E desta forma caiam facilmente nas garras de homens estrangeiros que as levavam a um motel e com elas ficavam o dia todo a troco de míseros reais. E depois as jogavam fora pelas ruas de Recife.
Ele citou inclusive o nome da novela que passava na época, e que de certa forma reforçava esta ilusão. Cabe ressaltar que em 1999 não havia reality shows em que marombados e popozudas ganham carros, prêmios e dinheiro fácil.
David ainda me disse que qualquer um que se oferecesse para levá-las para o Recife em troca de promessas de estudo e até de casamento teria esta menina em suas mãos.
Vendo esta realidade dura fica fácil entender por qual razão aceitar um convite para trabalhar no exterior seja tão tentador. Isto significa sair de uma vida miserável para ingressar em uma digna.
As protagonistas do tráfico de pessoas no mundo real em nada se parecem com Jessica ou Morena de Salve Jorge. Mas espero que a novela, através de seu imenso acesso, sirva de alerta a estas meninas e meninos do Brasil, que vivem isolados em lugares paupérrimos e que são invisíveis à maioria dos demais brasileiros. Que a TV faça o seu papel de mostrar a dura realidade dos traficados, ao invés apenas de iludir com promessas de ganhos mirabolantes.     

SAIBA MAIS (*):













segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

BEBIDA E DIREÇÃO



BEBIDA E DIREÇÃO
 Este vídeo mudou a consciência da população da Austrália sobre bebida e direção. Uma das maiores empresas de marketing do mundo resolveu passar uma mensagem para todos através de um vídeo criado pelo TAC (Transport Accident Commission).
Suely Pavan Zanella
No final do ano aumentam as festas de confraternização das empresas, as viagens com amigos, e com estes eventos o consumo de álcool. Não conheço nenhuma empresa que faz uma campanha de forma a não associar álcool, festas, e direção.
O consumo exagerado de bebida têm sido a responsável por inúmeras tragédias tanto por parte de quem dirige como também pelas vítimas de motoristas alcoolizados. Mas o consumo continua alto como se para divertir-se fosse necessário entornar garrafas e mais garrafas.
A bebida sempre foi um prazer a ser degustado aos poucos, porém a forma que se bebe hoje mais parece um campeonato visando “sair do ar”, e ficar literalmente bêbado. O objetivo é perder a consciência, e é óbvio que a perdendo fica muito fácil dirigir um carro ou transar sem camisinha!
Nossas campanhas são fraquinhas no aspecto da prevenção e o que vemos nas propagandas diárias é um incentivo absurdo para beber cada vez mais. Outro dia numa sessão de cinema vi três comerciais de cerveja passados antes do filme. Tenho certeza que muita gente saiu dali e foi tomar uma cervejinha e depois pegou o carro e foi para casa.
As bebidas são facilmente encontradas em ambientes cujos serviços são direcionados a motoristas, como os postos de gasolina. Quer associação mais fatal?
Há uma semana entrei numa posto de gasolina e logo dei de cara com um quiosque de determinada marca de cerveja. Dele saia uma música atrativa que dava até vontade de sair dançando pelo posto de gasolina. Eu conseguiria fazer isto com facilidade, já que não preciso de nenhum aditivo para dançar, mas sei que a maioria das pessoas, e principalmente os jovens só conseguem perder a vergonha e resgatar a espontaneidade após tomar alguns goles! Na parte lateral do quiosque havia uma plaquinha: Beba com moderação.
Afinal de contas o que significa “beber com moderação” para aqueles que precisam se soltar e que sem bebidas tornam-se tímidos e sem iniciativa para fazer qualquer atividade divertida?
Se você precisa beber para dançar, transar, beijar 10 pessoas na balada, eu te garanto como profissional que isto não é natural. Natural e espontâneo é aquilo que fazemos naturalmente, óbvio né?
Agora, se durante a semana de trabalho ou estudos temos que ser os “perfeitinhos”, os melhores e mais competitivos escolhemos formas de diversão que nos levem literalmente ao chão. Beber é uma delas, e de todas as mais arriscada, já que pegar uma máquina como um carro e dirigir alcoolizado raramente dá bons resultados.
A lei brasileira apesar de rígida quanto ao teor alcoólico não é cumprida. Raramente vemos a fiscalização ao lado de uma balada agitada ou de um posto de gasolina. Ao contrário já vi viaturas em lojas de conveniência paradas enquanto jovens consumiam bebidas e drogas nas ruas próximas. A impressão que tenho é que ninguém se importa.
Mães cansam de falar ao filhos: Não beba se for dirigir. E a resposta que ouvem é: Todo mundo bebe. O problema é que os filhos não estão mentindo. E duvido muito que se uma mãe desse a chapa do carro do filho à polícia avisando que o mesmo está dirigindo embriagado iria ser atendida.
Quem quer fazer a coisa certa em nosso país normalmente não tem amparo algum.
As leis precisam mudar diferentemente de países desenvolvidos em que o motorista embriagado mesmo que não mate ninguém é preso, no Brasil basta pagar determinada quantia e sair tranquilo. Nem sequer a carteira de motorista é apreendida na maioria dos casos, ferindo desta forma o próprio código de trânsito brasileiro. Se dirigir bêbado e por acaso matar alguém, também basta pagar uma fiança, tudo muito simples.
Rafael Baltresca após ter sua mãe e irmã mortas num atropelamento no dia 17/09/2011 criou o movimento Não foi Acidente (http://naofoiacidente.org/blog/sobre/) ocasionado por um motorista bêbado que dirigia em alta velocidade e que se recusou a fazer o teste do bafômetro apesar de testemunhas afirmarem seu lamentável estado de embriaguez.
Apesar do movimento Não foi Acidente ser de utilidade pública ele ainda precisa de uma série de assinaturas, e é até estranho imaginar que alguém ainda acredite que aquele que bebe e dirigi e por consequência mata alguém o faz sem saber a consequência de seu ato. Claro que dirigir e beber é uma forma de crime e não é acidente nem aqui e nem em lugar algum minimamente decente. Portanto, assine a petição: http://naofoiacidente.org/site/assine/
Beba pelo prazer e saiba que quem exagera no ato tem problemas sérios. E se dirigir, faça o óbvio: Não beba, mesmo que “todo mundo o faça”.
Se você só faz o que todo mundo faz você tem problemas de autoaceitação, e pertence à média, e isto se chama mediocridade.