terça-feira, 17 de novembro de 2015

Quando Será o Dia da Minha (Sua) Morte?

Quando Será o Dia da Minha (Sua) Morte?


Por Suely Pavan Zanella

Eles estavam felizes. Alguns assistiam a um jogo de futebol, outros foram ver um show de heavy metal em uma casa que desde sua fundação estipulou que por lá valeria qualquer tipo de espetáculo, menos a tragédia. Outros passeavam nas ruas.  Havia também aqueles que bebiam e fumavam nos bares, bem ao estilo livre e com mania constante de contemplar a vida parisiense.  O que nenhum deles sabia é que minutos depois muitos deles estariam mortos. Aqueles que ao contrário deles cultuavam a sombra e a infelicidade não se eximiram em atirar aleatoriamente. O que a vida e seu sentido representam para todo e qualquer assassino? Nada.
Fernando Savater em seu livro Ética para o Meu Filho diz que se todos os maus da face da Terra fossem corajosos diriam: Sou mau porque sou infeliz. E sou infeliz porque nunca fui amado.
Só os infelizes e sombrios não se eximem em apagar a luz alheia. Os puritanos fazem o mesmo, com a diferença, que matam a vida em vida. Quando você está bem, eles acham o contrário e vive e versa.
Os assassinos em geral seguem o mesmo curso. A vida para eles não representa nada, então, dentro desta lógica tirar a vida alheia dá no mesmo resultado: o nada.
Mas, para a maioria de nós que tentamos diariamente trabalhar, estudar, conviver com família e amigos, viver é muito importante. E nos momentos do dor da morte alheia, próxima ou não, passamos a pensar na vida e em sua importância. Não para viver intensamente, e desta forma também acabar com a vida mais rápido, mas sim para ir vivendo. Acredito que o gerúndio caiba exatamente bem quando o tema é vida. Vida que te quero viva!
Talvez o evento mais emocionante para os seres humanos seja o fato de ainda viver. E não saber quando tudo isso um dia e por qualquer razão cessará. Não importa que você seja adepto de alimentação saudável, coma só alface, até. Seja fumante ou não.  A verdade é que todos nós apesar da vida que vivemos um dia morreremos. Ninguém ficará para a semente, mesmo que leve a vida mais saudável do mundo. Todos os veganos um dia morrerão. Todos os que tomam não sei quantas xícaras por dia de café, idem, mesmo que as pesquisas digam que tomar não sei quantas xícaras do bom café promova a longevidade. Até porque viver muito ou preso a mil aparelhos em uma cama de hospital não deva ser lá muito bom!
Um vizinho de noventa e oito anos um dia no horário do almoço me disse: Viver muito cansa. O corpo não acompanha a sua cabeça!
O negócio, eu acho, é viver bem! Já que ninguém sabe mesmo quando partirá para sempre.
Você pode estar bem, e de repente ser surpreendido com a morte, como aconteceu em Paris, e diariamente nos homicídios.
Você pode estar doente, e se recuperar. Ou então estar doente e não alardear a sua doença, e de repente morrer. Já perdi três amigos do Psicodrama assim. Eu os acompanhava pelo Facebook, mas os conhecia pessoalmente, e um dia descubro que eles morreram. Obviamente levo um susto, e só depois descubro que eles estavam doentes. Mas diferente de muita gente que hoje quer se tornar famoso através de sua doença, desgraça ou mazela da vida, eles não propagandeavam as suas dores, ao contrário faziam postagem inteligentes e bem humoradas. Mas, no reduto de suas vidas particulares se tratavam. Nenhum deles deixou de trabalhar em meio aos tratamentos. Doença, estupro, depressão, ou seja, lá o que for não representa ninguém. Somos mais que isso, somos a vida que levamos. É o nosso conjunto que interessa. E aquilo que deixamos como exemplo.
Todos os dias no Twitter eu leio o obituário de alguém, acho que é a Folha de São Paulo que publica. Não sou chegada a dramas, mas é muito especial o jeito com que descrevem a vida de alguém: Gostava de cuidar das plantas; era apaixonada por piano...Descrições dos legados em vida.Isso é lindo! Todo o ser bom, deixa algum bom legado. Não preciso ser famoso e nem seque reconhecido pela população do planeta.
Não tenho como resgatar um monte de gente que morreu. Gente que sinto falta, muita falta. Alguns até hoje não acredito que morreram, tal como minha prima e meu pai. Mas, lembro-me deles e de todo o significado que eles tiveram na minha vida. Posso dizer que convivo com esta dor diariamente. Não adianta, quando perdemos alguém que de fato amamos a dor dói e muito. A saudade aperta, principalmente quando chega esta época do ano, em que a família é muito vital. Natal e Ano Novo com gente amada fazendo falta são difíceis de encarar.
Não recomendo a ninguém pessoal e profissionalmente, que engula as suas dores, ao contrário. Dores fazem parte da vida e são sofridas. Mesmo que as frases de autoajuda digam o contrário, como essa aqui, por exemplo: A dor é inevitável, o sofrimento não!
Apesar do jogo de palavras ser lindo, nunca vi ninguém sentir dor sem sofrer, aliás, são palavras semelhantes.
Quem engole dores um dia é cobrado por elas. Perceba que ao mesmo tempo em que cresceu a autoajuda (normalmente nos momentos de crise) também aumentou a depressão.
Tem gente, hoje em dia, que vive anestesiado com medo de não sentir dor. Quer que elas passem bem rápido. Não passam!  
Lembro de Freud que ao perder o seu neto querido perdeu também a vontade de viver. Trabalhava porque tinha contas a pagar, mas não tinha vontade de nada. Assim é o luto. Arrastamos-nos, para poder seguir em frente. E um dia, cada um ao seu tempo, conseguimos seguir. Assim é a vida!
A cidade de Paris está em luto, e mesmo assim, junto com sua dor silenciosa tenho aprendido muito com os parisienses. Os mais velhos dizem: A vida tem que continuar, ceder ao medo neste momento é a pior coisa. Eles têm razão. A vida continua e carregamos a dor dentro de nós, e através do nosso silêncio.

Ninguém sabe, afinal, quando será o dia de nossa morte. Mas enquanto este dia não chega que façamos de nossa vida algo digno, não só para nós, mas para todos que nos circundam. A luz sempre incomodou a escuridão. Que a vida nos mostre sempre a luz, e nos afaste da escuridão. É da luz que veio a vida, a liberdade e a inteligência. Que seja feita a luz! 

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